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Construção potiguar teme “apagão”

08/02/2010 - 11:37

Os anos de ouro vividos pela construção civil brasileira entre meados dos anos 60 e dos 80,   começam a ressurgir para o setor, puxados por projetos habitacionais, de infraestrutura e de construção de novos parques eólicos. O Rio Grande do Norte se prepara para surfar nessa onda de reaquecimento, mas, representantes da indústria e do varejo do estado temem que faltem materiais básicos de construção e que essa escassez – descartada pela indústria nacional – se torne uma pedra no caminho.

De acordo com o presidente da Cooperativa da Construção Civil do estado (Coopercon RN), que intermedeia grandes compras e serviços para 36 construtoras, Marcus Aguiar, a preocupação é maior em relação a produtos como cimento, aço, brita, tijolo, telha e madeira.  O temor é impulsionado pela previsão de aumento no volume de obras e no consumo não só no estado, mas no país, em razão de programas como o Minha Casa, Minha Vida, que prevê a construção de 1 milhão de novas moradias no Brasil, das quais 19.224 no RN.

Nesse caso, a preocupação do setor vai além de quantidade. Envolve também a equação “custos versus preços”, sobretudo para a construção de casas para a faixa da população com renda entre zero e três salários mínimos. O problema é que, para esse público, o preço de cada unidade é fechado em no máximo R$ 37 mil, incluindo terreno, infraestrutura e construção, o que impede que qualquer variação de preço, esperada para o caso de haver escassez, por exemplo, seja compensada com preço maior. “Quem fechou contrato tem de arcar com os riscos e dar um jeito de não tomar prejuízo”, frisa Aguiar, acrescentando que, nessas unidades, mão-de-obra e insumos básicos chegam a representar cerca de 80% do peso da obra.

O estado também deverá sediar   pelo menos 23 novos parques eólicos até 2012, para honrar o fornecimento de energia negociado em leilão federal realizado em dezembro.  O Rio Grande do Norte herdou o maior número de projetos entre os estados que estavam na disputa e, em cada torre de geração de energia, deverá  precisar de 40 mil quilos de aço e de 3.500 sacos de cimento. Se em cada parque fossem implantadas 20 torres, seriam cerca de 1.610.000 sacos de cimento só como base de sustentação. Outro evento que promete catapultar a demanda por materiais é a Copa de 2014, que será realizada no Brasil e terá a capital potiguar entre as sedes dos jogos e alvos de investimentos em infraestrutura.

A forte onda de crescimento para a construção nacional é esperada depois de quase duas décadas de recessão, motivada pela extinção do Banco Nacional de Habitação, em 1986.  Sem  recursos para financiamento e incentivos para investir, o setor só voltou a aquecer entre 2003 e 2004, quando o governo federal voltou o foco para a habitação. Na visão das construtoras do estado, o pico dessa retomada, esperado para os próximos seis anos, pode não ser acompanhado a tempo pela indústria. “Não é que os fabricantes queiram que o mercado entre em colapso. O problema é que eles travaram  investimentos com a crise e agora que estão retomando precisam  que as unidades comecem a  produzir e  que o produto entre no mercado. Só que, nesse meio tempo, a  possibilidade de desabastecimento é real”, diz  Marcus Aguiar.

Desde o final de 2009, quando a  demanda ainda não havia apertado, as lojas de materiais de construção do estado precisam  aumentar a programação dos pedidos para garantir abastecimento nas prateleiras. “E a tendência é que isso piore com todas essas obras”, estima o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do estado e diretor da rede varejista que engloba 22 lojas com as bandeiras  A Construtora e Saci, Marcelo Rosado.

Segundo ele, para não faltar, o cimento tem sido encomendado com no mínimo 15 dias de antecedência e o aço até 21 dias antes.

Para a indústria nacional, risco de escassez não existe

Para a indústria nacional, o aquecimento da construção civil traz, em vez de risco de escassez, perspectivas de expansão da atividade. “Hoje, nós temos em média 86% de uso da capacidade instalada. Temos 14% de ociosidade ainda. Além disso,  60% das indústrias planejam investir nos próximos 12 meses”, observa o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), Melvyn Fox.

Ele diz que há, porém, alternativas para evitar riscos em caso de picos de demanda. Se o consumo regional for maior que o esperado, há possibilidade de importação de materiais de outras regiões do país para garantir o suprimento. “Mas, de forma geral, não há perspectiva de falta de produtos nem de inflação nos preços”, afirma.

No caso da indústria cimenteira, o que afasta o risco é o crescimento nos números de fábricas e de fornos reativados no país. Para o setor siderúrgico, novos investimentos também devem garantir o abastecimento do mercado, mas não é só isso.

Outra garantia de abastecimento é a sobra de capacidade instalada existente na indústria, puxada pela baixa demanda no mercado interno, diz o vice-presidente executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes. “Não há a menor possibilidade de faltar aço no Brasil”, assegura.

Segundo o executivo, o setor fechou 2009 com capacidade instalada de 42 milhões de toneladas e com uma demanda interna de 20,7 milhões de toneladas. O número tem forçado a exportação de 40% da produção e significou uma sobra de capacidade de 103% em relação à demanda. Essa sobra tende, no entanto, a diminuir, na esteira de novos projetos em curso no país.

A expectativa é que os programas especiais como o Minha Casa, Minha Vida, a Copa de 2014, as Olimpíadas de 2016 e os projetos do setor de petróleo e gás, gerem uma demanda adicional de 8 milhões de toneladas, de 2010 a 2016, no mercado brasileiro. Isso representa cerca de 1,1 milhão de toneladas a mais ao ano e 3% do consumo nacional previsto para o período.

“Temos total capacidade de atender essa demanda e achamos que esses projetos mais o PAC podem representar um fator indutor de crescimento sustentado para o país e para o aço”, diz Lopes. Outro argumento contrário ao risco de escassez é o fato de o setor ter no gatilho um programa de investimentos da ordem de US$ 40 bilhões para ampliar para 77 milhões de toneladas a capacidade instalada da indústria.

O Instituto prevê que o consumo de aço, que despencou em razão da crise, crescerá 23,3% este ano, atingindo 22,9 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos, enquanto as exportações estão estimadas em 11 milhões de toneladas (+23,4%), possibilitando aumento de 25,1% na produção de aço bruto, para 33,2 milhões de toneladas. “O Brasil vem há mais de 26 anos com consumo per capita de aço em torno de 100kg por habitante. Torcemos para que haja uma retomada efetiva de crescimento para que possamos colocar cada vez mais nossa produção aqui dentro”, disse Lopes, em entrevista à Tribuna do Norte.

Segurança é buscada através de contratos

Um possível risco de escassez e a perspectiva de que o consumo no estado aumente cerca de 30% estão levando a Coopercon a buscar parcerias para garantir o fornecimento dos produtos por meio de contratos. A intenção é assegurar periodicidade de entrega e volume. “Hoje não existe garantia de fornecimento nem de compra”, explica Marcus Aguiar, presidente da Cooperativa.

Conversas nesse sentido vêm se desenrolando, por exemplo, com a  a Votorantim Cimentos, que vai investir R$ 300 milhões para construir um fábrica com capacidade para produzir 1,5 milhão de toneladas de cimento por ano, no município de Baraúna (RN), a 317 km de Natal. A obra deve começar entre março e abril  e a operação até o início de 2011, segundo o diretor comercial da companhia, Marcelo Chamma.

Para o coordenador de Desenvolvimento de Recursos Minerais da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Otacílio Carvalho, esse investimento deverá ajudar a  evitar a falta do produto no estado, mas não será o único. Segundo ele, há uma fábrica da Cimento Tupi em fase de licenciamento ambiental, com produção prevista de 650 mil toneladas por ano e planos de atender também outros estados nordestinos. “Temos pelo menos mais cinco grupos fortes com áreas no RN e potencial para a anunciar investimentos no setor. Essas perspectivas de crescimento podem estimular o anúncio mais rápido desses investimentos”, estima.

Atualmente, o Rio Grande do Norte é abastecido por uma fábrica do Grupo João Santos, a Cimento Nassau, em Mossoró, e por unidades na Paraíba, da Cimpor ,e da própria Votorantim.

Apesar de prever o risco de escassez para alguns produtos, Marcelo Rosado, da rede Saci/A Construtora, diz que o governo tem alternativas para não deixar faltar mercadorias no país. Uma dessas alternativas seria reduzir as alíquotas de importação para trazer produtos de outros países, o que, se houvesse necessidade, forçaria as indústrias brasileiras a aumentar a capacidade produtiva.

“Mas as dificuldades de importação são grandes. Você tem que ter volume para viabilizar uma linha, ter uma trade qualificada na importação desses insumos, tem produtos como cimento que são perecíveis e que não podem ser importados e ficar guardados por muito tempo, tem dificuldade de distribuição”, pondera Marcus Aguiar.

No caso da indústria cerâmica, seria preciso aumentar em 40% a capacidade instalada no estado para que o setor consiga abastecer o mercado potiguar e outros do Nordeste, onde vende o excedente hoje, diz o presidente do Sindicer, Pedro Terceiro de Melo. “Matéria-prima (argila e combustível para os fornos, que pode ser lenha ou alternativas como casca de coco, poda de cajueiro e casca da castanha) e mão-de-obra tem, mas as empresas dependem da liberação de crédito e  da forma que é liberado para comprar equipamentos. Juros altos e prazos curtos não ajudam”,   observa ele, afirmando que seriam necessários de três a seis meses para expandir a capacidade. “Já estamos um pouco atrasados”.

A indústria cerâmica do Rio Grande do Norte produz 84 milhões de peças por mês. Desse total, cerca de 40% ou 33,6 milhões de peças são tijolos e 60%, o equivalente a 50,4 milhões, são telhas. Do total produzido, 70% abastece o mercado do Rio Grande do Norte. O restante segue para Pernambuco, Alagoas e Bahia.



Fonte: jornal Tribuna do Norte de 07.02.2010

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